sábado, 27 de junho de 2009

Aquele lugar:

adrianaoliveira

Aquele lugar...

Aquele lugar está vazio.

Aquele mesmo no sofá da sala

Mesmo que alguém sente e ali permaneça

Ainda assim continuará...

Pois não é alguma presença que cobrirá a sua ausência

Faltará a companhia...

O comentário...

O sorriso contido...

O caráter extra-ordinário!

A ironia tricolor não estará mais lá

A certeza do dever cumprido... De tudo sob controle...

Também, não.

Aquela força imperiosa

Ao seu modo majestosa

Que com breves palavras se fazia sentir...

Lá não estará.

Não lamento a perda nem a falta de nada

Já que o que dói é a ausência

O lugar vazio...

A companhia presente que nunca sumirá

De dentro da gente.

 

Douglas Naegele

Com saudades de meu amigo Jarbas

Em: 25/06/2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Meu Sol... Minha Filha.

              Mariah... Linda

Quando te vi pela primeira vez, foi amor à primeira vista. Era a filha desejada, pedida em meus sonhos, que se apresentava para mim. Meu Sol... Meu “solzinho”... Num primeiro momento, agradeci aos céus pela dádiva que me era concedida, mas o egoísmo acabou vencendo a luta e vociferei contra àquele que nos dá o direito à vida. Meu egocentrismo era tamanho que, acreditei durante certo tempo que Deus havia me punido, já que arrancara de mim 20 anos de nossas vidas. Não permitindo que compartilhássemos muitos momentos que seriam só nossos... De nós dois, sabe?!

Minha raiva era tanta, que muitas das vezes, cheguei a chorar desconsolado por ter-me furtado de algumas coisas que serviriam de subsídios para algumas conversas, daquele tipo “pai-para-filha”, que nunca ocorreram. Senti inveja e ciúmes de sua mãe... Ela, logo ela, que tanto amo, desfrutara dos “meus” momentos... Dos “nossos” momentos!

Como eu quis ser ela!...

Com o tempo passando, fui me apercebendo de que Deus não fora tão malévolo comigo... Aliás, comigo Ele sempre foi justo, me dando a medida certa daquilo que sempre precisei e preciso, nem mais, nem menos, apenas a medida certa. E foi assim, num desses instantes em que Ele fala conosco, baixinho, quase sussurrando que me disse:

- Tudo que você pensa ter perdido e não desfrutado, está ali guardado.

- Como Senhor?! Eu não entendi... – respondi, pois eu quase nunca entendo o que me dizem de primeira, sabe?! Mas, Ele continuou...

- Observe o sorriso... É o mesmo que Eu criei para ela, quando ainda era um bebê. Até as covinhas do rosto, Eu guardei, para que você não as perdesse... A mesma candura e até a meiguice da menina estão ali para que você absorva como néctar de minha bênção. Note mesmo, perceba bem, pois traços teus dentro dela têm... Eu não te roubei um dia, uma hora, um segundo sequer... Na verdade, Eu o moldei, o fiz crescer, para que agora, chegado o momento certo, você possa agradecer... E obedeça ao que lhe ordeno, vá lá e agradeça... Diga “muito obrigado”. Faça isso e não esqueça...

Obediente a Deus como sou, estou aqui e agora, sei jeito e sem cara, dizendo:

Obrigado, minha filha, obrigado... Por você ser apenas o que você é... Meu Sol, minha filha...

Te amo

 

Por Douglas Naegele

domingo, 29 de março de 2009

Tudo

 

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Resolvi escrever tudo que eu sinto por você...

Muito pensei e no tanto que meditei

Percebi que tudo que eu sinto cabe numa só palavra:

TUDO...

É o que eu sinto.

 

 

Por: Douglas Naegele

Em: 29.03.2009

quarta-feira, 25 de março de 2009

Camaradas:

 

 

Os velhos militantes da JC dos 80

Camarada...

Não é aquele que paga uma cerveja gelada

Muito menos aquele que gosta de uma conversa fiada

Ou que fica de butuca arregalada

Quando uma gostosa está na parada

Não... Isso não é ser camarada.

Camarada é algo diferente

Indescritivelmente inteligente

Uma sensação poderosa de confiança

Que não se traduz numa amizade de infância

Camarada é mais que companheiro

Muito mais que confidente

Camarada é um vínculo jamais esquecido

Daquilo que nunca foi prometido

Uma coisa consciente até mesmo incandescente

Como o meio de um braseiro

Ah! Isso sim é ser camarada!

E eu... Sou um homem de sorte. Tenho alguns camaradas...

A gente discute, diverge e concorda

No entanto, não se abandona

Até que nos largos anos que escoam nas mãos encarquilhadas do tempo

Nas idas e vindas do efeito sanfona

No outro lado do rio da sorte

Dizemos adeus, por força da morte

Há quem diga que ainda assim os camaradas, queiramos crer ou não, aguardam...

O momento do reencontro do outro lado

Só por que são, camaradas.

 

 

Por: Douglas Naegele

Em: 25.03.2009

quinta-feira, 5 de março de 2009

Abusado

 

ABUSADO

O tal de Bom Senso... Eu dispenso.

Mesmo diante a todos puritanos que tropeçam no que penso

As tais Boas Maneiras... Me parecem asneiras.

Ainda que precise delas no trato com essa elite de toupeiras

Não me julgo liberto desse jugo

Quanto mais me enquadrar no que recuso

Exaspero inutilmente entre berros e sussurros

Numa retumbante falta que denota meu abuso

Logo, sou abusado... Que isso fique claro!

Ser do meu jeito nem de longe me constrange

Mas, o que esperar daqueles rancores tão constantes?

Digo isso não que necessite

Já que é o cumprimento dessas regras inúteis

São de todo e sobretudo o que de fato existe

Regras... Chatices, isso é que são!

Então, chega! Sou abusado e ponto final.

Se as cumpro é por imposição social

Nem de perto ou de longe me sinto com obrigação

Sou abusado e ponto final.

Por: Douglas Naegele

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Vai pra onde, tio?

                                              (CONTO)

                Brasil_Rio_de_Janeiro_Morro_da_Provid_ncia

O sol já ardia firme às sete e meia da manhã naquela segunda-feira. Havíamos marcado para nos encontrar na esquina do Beco da Bica com a Rua Barão da Gamboa, no sopé do Morro da Providência, Zona Portuária do Rio de Janeiro. Iríamos iniciar um trabalho de pesquisa sobre o conceito de família junto aos moradores daquela comunidade, iniciativa de uma organização não governamental evangélica, dirigida por um amigo meu que havia aceitado a minha participação como “observador”, pois eu não fazia parte nem da entidade pesquisadora, nem da igreja que encomendara a tal pesquisa. Como convidado, eu não era integrante da equipe entrevistadora, mas estava autorizado a fazer algumas perguntas aos moradores locais, a fim de coletar subsídios para um futuro trabalho sobre a mais antiga “favela” do Brasil. Seria a primeira vez eu que visitaria aquela comunidade, terra do “Prata Preta”, palco de lutas populares históricas, berço da Revolta da Vacina e onde surgiu o termo que durante muito tempo foi utilizado para designar um povoamento de baixa-renda no Brasil: Favela...

Eu estava emocionado... Pensava: - Será que essas pessoas conhecem a história do local onde vivem?

               Birosca

Logo que iniciamos a subida, na primeira “birosca”, nos deparamos com uma cena que, não posso negar, me chocou. Já havia visto pessoas usando drogas nas esquinas do Rio, em boates e danceterias. Crianças cheirando “cola” em meio à multidão, em pleno Centro da cidade, também. Meninas se prostituindo em troca do que comer nas rodovias federais, de mesmo modo, não me eram novidade. Mas, homens caídos nas vielas do morro, totalmente embriagados, verdadeiramente me desconcertaram... Ou melhor, me incomodaram, mesmo!

Isto por que, ao longo de todo nosso trajeto, não eram dois ou três, mas muitos homens caídos... Bêbados... Jogados... Esparramados como se lixo fossem!

Profundamente perturbado com o que vira, decidi perguntar a uma moradora a razão que resultara naquele bando de corpos ao chão. A resposta foi, no mínimo, curiosa: - A estiva tava fraca, moço...

Estiva fraca? O que seria estiva fraca? Nada disse. Calado como estava, continuei o trabalho que havia me proposto a fazer, entrevistando as pessoas sobre o conceito de família que elas tinham e aproveitando para checar o grau de politização de cada pessoa que eu conversava... Todavia, meu incômodo não passava, e já quase no topo do morro, sentado num sofá de um casebre divido ao meio por uma cortina suja, a qual há muito tempo deixara de ser vermelha, ao saber que a profissão do chefe da casa era estivador, perguntei: - E a estiva está fraca? – Ele, muito sério, respondeu que a culpa era dos “milicos” e do Collor que “acabaram com o porto”...

- Hoje em dia, seu moço, os homens acordam as quatro da “matina”, descem o morro para se apresentarem ao capataz na porta dos armazéns. Como o trabalho é pouco... A maioria não trabalha e quem não trabalha “num ganha”... Eles voltam pra casa e bebem!

Pronto. Havia matado a charada! Estiva fraca significava falta de trabalho, conseqüentemente, falta de dignidade... Aqueles homens caídos nos becos daquela comunidade eram trabalhadores desempregados, desiludidos... Desesperados!

                 cafe302k

Naquele momento, um ímpeto cresceu dentro de mim e um desejo de conhecer mais profundamente a realidade daqueles homens, suas famílias, suas histórias... Entretanto, duas frases não saíam de minha cabeça: “... os ‘milicos’ e o Collor acabaram com o porto...” e ...”quem não trabalha ‘num ganha’...”.

Por volta das cinco e meia da tarde descemos o morro. Somente voltaríamos na sexta-feira seguinte, mas mesmo assim, eu havia decidido que no dia seguinte retornaria para continuar minhas conversas com os moradores dali.

Voltei para casa, excitadíssimo. Minhas idéias fervilhavam! Imaginava como seria a vida de cada um daqueles homens caídos nos becos e vielas da Providência... Quais seriam suas histórias? Seus anseios? Seus amores? Será que ainda existiam perspectivas de felicidade? Eu tinha que conversar com algum daqueles homens!

Não consegui dormir... Passei a noite em claro. Aproveitei o tempo para pesquisar um pouco mais a história do Morro da Providência, afinal a internet serve é para isso, né?!

                providencia_workinprogress_jr

Assim, logo que o dia amanheceu, tomei um banho e me vesti. Peguei o gravador de bolso, conferi se a bateria estava carregada e me municiei com duas fitas. Um caderninho de notas e duas canetas completaram meu aparato de trabalho. Tomei um café no “boteco” da esquina aqui de casa e segui meu caminho. O relógio já beirava às oito horas da manha quando iniciei a subida pelo mesmo Beco da Bica que havia subido no dia anterior. Desta vez não havia nenhum corpo caído junto à primeira “birosca”, aliás, não havia ninguém bêbado em lugar nenhum, sequer as “biroscas” estavam abertas... Estranhei, mas pensei: - A estiva hoje deve ter sido “forte”...

Despreocupado, achei que o melhor seria bater na casa do Seu Dionísio, o morador que havia conversado comigo antes. Certo de que saberia chegar ao endereço, dobrei numa viela à esquerda e danei a subir uma escadaria imensa que se bifurcava em outras duas, tão íngremes quanto à primeira. Escolhi a da esquerda e foi nesse momento que um menino, digo menino, pois o garoto não deveria ter mais que doze ou treze anos, armado com um fuzil me abordou ameaçadoramente: - Vai pra onde, tio? – quis saber. Assustado com o tamanho da arma que o garoto portava e, mais ainda, pelo fato de que era óbvio que o menino estava completamente drogado, respondi: - Na casa do Seu Dionísio...

- Quê que o senhor que com ele? Ele te conhece? – Inquiria o garoto sem para de se morder. E antes que eu dissesse qualquer coisa, ele ordenou: - Vem comigo que o negócio tá ruim aqui hoje! Pensei comigo: - Isso vai acabar mal...

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Fui levado, por entre becos e vielas, até o alto do morro, com o menino sempre atrás de mim, se mordendo como um louco. No meio do caminho, outros dois garotos se juntaram à minha comitiva. O mais velho com cerca de uns dezessete anos e o mais novo, talvez, uns quinze. Ambos bem armados, o “menorzinho” portava uma submetralhadora, o outro além de um fuzil, uma pistola que parecia que iria cair a qualquer momento de sua cintura. Chegamos a uma “praça” onde outros garotos armados, fumavam maconha, cheiravam cocaína e conversavam quase que aos sussurros. Fui levado ao que parecia ser o “chefe” deles... Outro menino. Não devia ter mais do que vinte anos, vinte e dois no máximo! O primeiro menino que me abordara na escadaria, relatou como e onde me encontrara e o que eu dizia que estava fazendo. Aquele que parecia e comportava como “chefe” me chamou e perguntou o quê que eu queria com o Seu Dionísio. Eu respondi que queria conversar. Expliquei que estivera no dia anterior conversando com ele acompanhado pelo “pessoal da igreja”, etc.. Foi aí que tudo mudou...

- Ah! O senhor é da igreja... Porque não disse antes?! Tá tudo certo, Ratinho... Leva o “irmão” lá no meu pai, que tá tudo em ordem! – disse o filho do Seu Dionísio, o Sapinho, “dono” do Morro da Providência. Naquele instante descobri que a saudação evangélica: “A Paz do Senhor”, abriria mais portas do que eu poderia supor... Ao menos naquela comunidade.

Escoltado por Ratinho, fui levado até a casa do Seu Dionísio, que ficava do outro lado do morro, na direção contrária da que eu tomara antes de meu encontro com Ratinho. Fui recebido pela Dona Maria, esposa do Seu Dionísio, mãe do Sapinho.

- Olha só Dona Maria!... Olha quem eu encontrei perdido aqui no morro! O Sapinho me mandou trazer o “irmão” até aqui pra conversar com Seu Dionísio... – Dona Maria me olhou com jeito caridoso, e disse: - Tá entregue, Agnaldo... Pode ir... – Com um olhar severo sobre mim, Dona Maria perguntou: – O Pastor sabe que o “irmão” está aqui? – Sem graça, respondi que não. Minha anfitriã, ainda com a cara emburrada, disse que eu não deveria me arriscar no morro por aqueles dias, pois o morro estava “em guerra” e quando o “pessoal da igreja vem aqui, vai lá deixa tudo acertadinho com os ‘meninos’! O ‘irmão’ num pode fazer isso assim, não...” – Terminada a bronca, Dona Maria me serviu um cafezinho e me informou que Seu Dionísio iria demorar, pois ele conseguira trabalhar naquele dia, mas seu quisesse esperar, por volta da hora do almoço ele já estaria de volta. Sem alternativa, aceitei...

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Enquanto esperava o Seu Dionísio, Dona Maria foi me esclarecendo algumas de minhas dúvidas. Sapinho, aliás, Juliano, fora criado na igreja desde pequeno... Certo dia, de acordo ela, se desiludiu com o pastor e com outros “irmãos”, por causa de umas coisas estranhas que ele disse ter visto, largou a igreja e se juntou com quem não “presta”. E por causa dele, o Maurício, agora chamado de Dão, o caçula da família saiu de casa e se juntou ao irmão mais velho, tornando-se o segundo no comando do morro.

A conversa fluía com naturalidade, eu quase não perguntava nada, pois Dona Maria, emendava um assunto no outro, explicando tudo com riqueza de detalhes, como se soubesse exatamente o que eu buscava saber. Lá pelas tantas, eis que chega Seu Dionísio. Com jeito de quem já sabia que eu estava em sua casa, e obviamente já sabia mesmo, meu anfitrião me saudou como se eu já fosse “de casa”: - A paz do Senhor, irmão! – Eu me levantei e apertamos as mãos. Dona Maria estendeu sobre a mesa, uma toalha tão surrada quanto a cortina que dividia a casa, enquanto o marido lavava as mãos e rosto. Seu Dionísio puxou uma cadeira e sua companheira serviu um prato de comida que mais lembrava uma montanha de tão cheio. Não quis ser inconveniente, por isso me mantive calado, e quando Dona Maria trouxe-me um prato de comida tão cheio quanto o do Seu Dionísio, mesmo achando um exagero a quantidade que ela me havia servido, nada disse e me juntei ao dona da casa à mesa. Dona Maria não comeu conosco. Se comeu... O fez em outro lugar.

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Após saborearmos a deliciosa comida caseira de Dona Maria, Seu Dionísio e eu, nos sentamos no velho sofá da sala e antes que eu me manifestasse, o velho estivador perguntou: - Pois então, meu “irmão”, o quê te trás aqui de novo? Soube que o “irmão” quer conversar comigo. Do que se trata? – Expliquei pormenorizadamente o que me levara a procurá-lo novamente, narrei minha aventura com Ratinho, como fora apresentado ao seu filho e a maneira pela qual eu acabara sendo conduzido à sua casa, etc.. Com tudo esclarecido, Seu Dionísio falou:

- Bem, meu “irmão”... Se é sobre a estiva e sobre o morro, isso eu posso falar, só não quero conversar sobre essa “malandragem” que meus filhos estão envolvidos.

- Não, Seu Dionísio, eu quero saber é sobre o morro mesmo – disse eu – Quero entender a relação entre a comunidade e o Porto do Rio, o quanto que um precisa e existe com ou sem o outro.

             PortoDoRio1817

- Nesse caso, eu posso dizer que essa coisa entre o morro e o porto já foi mais forte. Mas, hoje em dia, não é mais não... Para o “irmão” ter uma idéia, meu avô trabalhava na estiva e levou meu pai e meus tios para a estiva. Meu pai e meus tios levaram a mim, meus irmãos e meus primos pra estiva, também. Dos filhos de meu pai, só eu não consegui por os meus filhos na estiva... Não quiseram... Acharam de fazer besteira na vida...

- Era assim que funcionava – continuou – passava de pai para filho. A gente fazia o primário, chegava até a “admissão”, que era antes da gente entrar pro “ginásio”, depois a gente entrava pra estiva, pois filho de estivador não ficava desempregado! Sempre tinha trabalho... Num faltava, mesmo! Isso aqui era apinhado de navio... Navio de tudo quanto é tipo! Então, era assim... Mas depois, na época que eu estava para casar, os navios deixaram de atracar aqui e passaram a preferir Santos e Tubarão... Também, pudera! As empresas foram todas para São Paulo, não restou nada aqui! Uma ou outrinha é que insistiu... E as que aqui ficaram, se não fecharam, foi por pouco...

              PortoDoRio1930

Eu estava embevecido. A conversa estava ficando melhor do que eu imaginava! Em minha mente eu juntava os pauzinhos: A “estiva fraca” criou uma massa de desempregados, os quais, praticamente, mendigavam por um dia de trabalho, baixando o valor da hora de trabalho, o que levava a um pauperismo sem fim. Assim, era obvio que o filho do estivador encontrasse cada vez mais dificuldades para prover a família. O que já respondia, de certo modo, a outra pergunta, no que dizia respeito aos filhos do Seu Dionísio... Certamente, não só eles, mas os outros que optaram pela via criminosa do tráfico de drogas, o fizeram por notarem que o trabalho árduo de seus pais, tios e primos não estava mais compensando. Isto tudo resultava na desilusão de uma mocidade que poderia, se a estiva não estivesse “fraca”, ter tomado outro rumo...

                 PortoDoRio2002

- Tudo isso começou com os militares! – prosseguia Seu Dionísio – Pois, mesmo depois que a Capital saiu daqui para Brasília, as fabricas continuaram aqui... As empresas continuaram a exportar e a comprar mercadoria. Mas, depois de 64... Os generais foram enfraquecendo o Rio... Dando “vantagem” para as empresas que fossem para São Paulo... Para Minas... Para você ver: Quando eu me casei, eu comprei essa casinha daqui que era de folha de zinco, botei tudo abaixo! Fiz alicerce, sapata, coluna, coloquei cada tijolo e ainda bati laje! Tudo com dinheiro da estiva! Paguei tudo à vista... Sem esse negócio de prestação! Os móveis aqui de casa, a cortina, tudo foi comprado à vista! Minha casa, quando casei, era uma beleza... E eu ainda tinha planos para aumentar, fazer mais três quartos lá em cima... Mas, aí a estiva ficou “fraca”... Trabalhava um dia e no outro eu descia, mas num tinha trabalho... Às vezes ficava dois, três dias, sem trabalhar... Cheguei há ficar quinze dias, né Maria?!

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- Foi nessa época que o “comando” chegou por aqui – disse Dona Maria, se chegando – Aí, mudou tudo! Os “meninos” passaram a andar armados... Era “guerra” todo dia! Contra a polícia, contra outra facção... Volta e meia, tentavam invadir aqui! E os “meninos” faziam “guerra”... E toma-lhe “bala” para tudo quanto é lado!

- É... E foi na época do Collor que tudo foi “pras cucúias” – interrompeu o estivador – Privatiza dali... Privatiza daqui... O porto quase fechou de vez... Ficou às traças... À míngua, mesmo! Os estaleiros fecharam e tudo que já estava ruim, ficou ainda pior... Mas, aí o povo viu que o camarada era do mau e tirou ele de lá! Aquele negócio do “impeachment”, lembra?!

Realmente, eu estava me deliciando com tudo que ouvia. Jamais poderia imaginar que eu estaria ali ouvindo da boca de um estivador, morador de uma favela, a história recente do Brasil sob o olhar do prejudicado, desengajado, apartidário... Aquele que devia tomar a História nas mãos!

A conversa poderia se estender ainda mais, talvez por horas a fio, mas... De repente, a porta do casebre se abriu! Era Ratinho...

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- O “irmão” vai ter que descer agora! – disse o garoto, com os olhos esbugalhados.

- O quê que houve Agnaldo? – perguntou Seu Dionísio.

- Os “home” estão preparando para subir... Vai ter “guerra”!

- Então é melhor o “irmão” ir descendo mesmo... Se não a coisa pode ficar esquisita pro amado aqui em cima. – Compreendeu a situação o velho estivador que, se pondo de pé, arrematou: - É melhor o “irmão” vir comigo...

Nem questionei, apenas segui Seu Dionísio. Na medida em que nos aproximávamos do “asfalto”, eu podia ver o perigo que se avizinhava. Dezenas de viaturas policiais, estacionadas de qualquer maneira, se aglomeravam às cercanias do Morro da Providência. Na saída do morro, Seu Dionísio me deu um abraço e pediu para eu voltar um outro dia, mais calmo, sem “aquela agitação”. Concordei e segui a Rua Barão da Gamboa em direção à Rua do Livramento. Lembro de ter pensado que nunca vira tanta polícia em um só lugar... Nem olhei para trás, pois eu estava apavorado...

Voltei para casa e me fartei ouvindo toda a prosa do Seu Dionísio. “Que conversa boa... Nem mesmo em roda de intelectuais ouvi tanta pureza e sentimento!” – Comentei com meus botões. Alta noite, fui dormir, depois de por tudo que vivera e vira na memória do computador...

                    Morro da Providência04

No dia seguinte, li a notícia estampada em todos os jornais do Rio, daquilo que eu por pouco não presenciara. A polícia havia “invadido” o Morro da Providência, onze mortos, as fotos mostravam duas execuções, um dos executados era o Ratinho, ou melhor, o “menino” Agnaldo. O pai dos traficantes Sapinho e Dão, o estivador Dionísio “das couves”, foi morto na troca de tiros entre a polícia e a bandidagem. Sapinho fora detido e levado para a carceragem da Polinter. Não se sabia, até o momento da impressão daquela edição, o paradeiro de Dão, provável sucessor de Sapinho no comando do tráfico no Morro da Providência.

            Morro da Providência01

Uma dor estranha, um pouco sem sentido, tomou meu coração. Afinal eu não conhecia todos os envolvidos... Mas, de qualquer modo, eu me sentia meio que fazendo parte de tudo... A imagem e o abraço do Seu Dionísio ficaram como despedida... E uma voz ainda ecoava em meus ouvidos...

- Vai pra onde, tio?

Agora, parecia dizer: Adeus...

 

Por: Douglas Naegele

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

A Nossa Vontade:

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Não apregoam o mistério

Apenas o alcançam

Retumbando nos ouvidos

Tamanho impropério

Do nada... Se cansam

Certa feita, noite a dentro

A falácia enaltecida

Faces magras e empobrecidas

Calam-se diante à tormenta

Pobres almas dessas criaturas

Que haviam silenciado

Engoliram tanta asneira

Uma soma de mentira e besteira

Enloucaram... Quase desistindo

De enfrentar os malditos salafrários

Distribuídos entre o sagrado e o ordinário

Pobres almas...

Da política torpe nada mais esperam

Em desilusão montada aos solavancos

Mesmo inundados pela imundícia não desesperam

Pois, sabem que esses bem falantes

Que mil promessas fazem... Pouco cumprem.

Já que é nas dores do povo

Que esses prosperam

O fim disso tudo é chegado

Se não agora, no tempo certo... Tão esperado.

Do sangue e da lágrima que escorreram do Livramento

Uma sede cresce

Dando um nó na garganta

Vontade que não descansa

Clamando por vingança

Na espreita, a oportunidade

De lacerar, cortar e esfolar toda a impiedade

Embrutecida e pestilenta

Que ceifou a esperança de vida

Em mais um atrocidade violenta

Não serão balas nem fuzis

Mas, organização e luta

Que brotará a dignidade daqueles que ninguém escuta!

Seja feita a nossa vontade...

Por: Douglas Naegele

Versos feitos após a morte de três jovens moradores do Morro da Providência, entregues por quem deveria defender o povo a bandidos de uma comunidade dominada por uma  fação criminosa rival à que comanda o tráfico de entorpecentes no Morro da Providência.