terça-feira, 30 de setembro de 2008

Seu Olhar:

Seu Olhar

Seu Olhar:

Esse brilho que devora

E milimetricamente me explora

Não responde, nem esconde...

O que de palavras é apenas fonte

Abrange todo um ser aflito

Que tão profano e maldito

Insurge-se no infinito

Invadindo meu próprio mito

Um olhar que me expõe

Quão de perto sobrepõe

A desconfiança que carrego

Na angústia de meu ego

O qual se finge fortalecido

Na alcova de meu abrigo

Mas que no fundo se aliena

Sendo digno de pena

Um olhar que me incentiva

E na verdade me cativa

Faz-me dependente de tê-lo

Ainda que de relance vê-lo

Já que para mim é alimento

E ao mesmo tempo: meu tormento!

Como posso eu viver?

Na argúcia do lembrar...

Urge agora receber

O descanso do seu olhar.

Por: Douglas Naegele

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Tempo Doido Esse...

Tempestade

Tempo doido esse...

Deveríamos estar derretendo de calor.

Mas, o frio é avassalador...

As areias não exibem a nudez esperada

Em vez disso, estão vazias e abandonadas...

À noite quando o chopp estaria embalando,

O vinho se faz soberano.

Onde estão as barriguinhas expostas?

Os piercings à mostra,

Os corpos tatuados,

Sarados e bronzeados?

Ei-los todos encasacados!

A vida noturna do Rio,

Não combina com esse frio...

Antes, o sol com sua energia,

Dava o tino da economia!

Mas, as chuvas constantes,

Que não dão trégua um só instante...

Fizeram o clima londrino,

Do Rio o seu destino!

Mas...Eu posso falar a verdade?

Que nenhum conterrâneo me escute...

Apesar de aqui ter nascido...

Nada contra o Verão ou quem o curte!

Estou amando esse clima, assim tão deprimido...

Tempo doido esse...

Por: Douglas Naegele

Em: 03.12.2006

domingo, 28 de setembro de 2008

Uivos Noturnos:

lobo

Uivos Noturnos:

O silvo do vento tomou seu abrigo

Rompendo o encanto de ser seu amigo

Respostas exatas para o fúnebre intento

De repousar apenas fugindo confuso do maldito vento

Nem toda paz é cativa

Nem toda morte é passiva

Nem toda serpente é nociva

Mas toda desgraça é missiva

Representava a sua mudança

Despertando do sono de criança

Cada vez mais decepcionado

Já que a morte está ao lado

Rasgou suas vestimentas

Reagindo, pregou a tormenta!

Lustrou com saliva seus velhos coturnos

Ouvindo calado os uivos noturnos

Toda guerra é vã

Toda alegria é sã

Toda tristeza tem fã

Toda lágrima é pagã

Porém continuou Lobo

Sempre fiel, mesmo que solitário...

Montou para si um novo diário

Tão tolo, tão bobo...

Onde se mostrou mero otário

Assim, continuou vazio...

Em busca de quê, nem ele sabe...

O vento continuava

E em seus ouvidos a morte uivava!

Por: Douglas Naegele

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Ossos Secos:

Ossos secos

 

Seco vale dos ossos secos

Das tétricas manhãs cinzentas

Sem gramas, sem árvores...

Paixões violentas!

Onde a vida de se esvai e escoa

De modo permanente entoa

Uma canção de lamento

Que encontra audiência

Envolta ao tormento

Surdas lápides tranqüilas

Deixadas marcadas

Por fétidas vísceras dilaceradas

De quem quer que fosse

Ali encontradas

Deram o toque final... À fome de algum animal.

Contudo, agora...

Sem os raios da aurora,

Sombrio e medonho

Esse vale tristonho

Seco vale dos ossos secos

Por: Douglas Naegele

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Solo Sagrado

Solo Sagrado 2

Solo Sagrado:

Descansa em solo sagrado

A história de um mundo mudado

Por letras escritas em mim

Tatuadas em meu corpo, enfim

Distante de onde eu venho

Como a moagem de um velho engenho

Reescreve em curta memória

Um épico como o de Tróia

Narrado com voz embargada

De frente a uma lareira apagada

Soando tão falsa como a vida

Depois, em carrara esculpida

Essa lenda que conta o meu ser

Com toda dificuldade de ler

Curado tal qual numa mágica

Falida página trágica

Que revela a sutileza

Na plenitude de mera beleza

De anos contados por vis

Com balas de canhões ou fuzis

Profundas maquinações

De intricadas razões

Levaram então a minha morte

Mas, não contavam com a sorte

Que num ato de simples vingança

Trasladou a pobre esperança

Que sofria em profunda ruína

Mantendo uma fidelidade canina

Na mão do seu benfeitor

O qual atestava com profundo horror

Que aquele corpo inerte

Ainda que como um vampiro desperte

Só poderia ser meu

Um misto de judeu e ateu

O mesmo crente desalmado

Que acorrentou-se no pecado

Nesse instante jazia

Tal qual uma mala vazia

Servindo em prata bandeja

Derrotado na última peleja

Meu corpo pálido de herói

Figura opaca que um sopro destrói

Varrido e seco

Assim como esterco

Em hora obtusa e vã

A uma divindade pagã

Envolto em puro mistério

Na cova rasa de um cemitério

Morri sem orgulho ferido

Do mesmo modo bandido

Em que meus anos vivi

De muitas delícias servi

Com o corpo sobrepujado

Por vezes violentado

Deixo a todos a minha história

De desonra e boa memória

Pois, descanso em solo sagrado

Mesmo que em cova rasa

Tendo sido herói

Abatido como bandido

Me encontrando todo torto

Como os versos finais que escrevo

Horríveis, mas com eles pareço

Eu, descanso, em solo sagrado...

 

Por: Douglas Naegele

Em: 12.12.2006

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Poeta Ordinário:

Poeta ordinário

Poeta Ordinário:

Lábios vermelhos

Em profundo desejo

Sorve-me a língua

No mesmo ensejo

Valha-me!

Agora... Ser miserável.

Repugnante e desprezível

Pretenso poeta ordinário

O que te fluem?

Desta boca maldita

Crivada de lixo

Em termos menores

Seus versos aflitos

Cansados, piores...

Enquanto recita

“A flor é bela e manca,

A flor mais bela panca...

Espanca a flor que é bela

O nome de uma deusa

Florbela Espanca “.

Por: Douglas Naegele