quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Solo Sagrado

Solo Sagrado 2

Solo Sagrado:

Descansa em solo sagrado

A história de um mundo mudado

Por letras escritas em mim

Tatuadas em meu corpo, enfim

Distante de onde eu venho

Como a moagem de um velho engenho

Reescreve em curta memória

Um épico como o de Tróia

Narrado com voz embargada

De frente a uma lareira apagada

Soando tão falsa como a vida

Depois, em carrara esculpida

Essa lenda que conta o meu ser

Com toda dificuldade de ler

Curado tal qual numa mágica

Falida página trágica

Que revela a sutileza

Na plenitude de mera beleza

De anos contados por vis

Com balas de canhões ou fuzis

Profundas maquinações

De intricadas razões

Levaram então a minha morte

Mas, não contavam com a sorte

Que num ato de simples vingança

Trasladou a pobre esperança

Que sofria em profunda ruína

Mantendo uma fidelidade canina

Na mão do seu benfeitor

O qual atestava com profundo horror

Que aquele corpo inerte

Ainda que como um vampiro desperte

Só poderia ser meu

Um misto de judeu e ateu

O mesmo crente desalmado

Que acorrentou-se no pecado

Nesse instante jazia

Tal qual uma mala vazia

Servindo em prata bandeja

Derrotado na última peleja

Meu corpo pálido de herói

Figura opaca que um sopro destrói

Varrido e seco

Assim como esterco

Em hora obtusa e vã

A uma divindade pagã

Envolto em puro mistério

Na cova rasa de um cemitério

Morri sem orgulho ferido

Do mesmo modo bandido

Em que meus anos vivi

De muitas delícias servi

Com o corpo sobrepujado

Por vezes violentado

Deixo a todos a minha história

De desonra e boa memória

Pois, descanso em solo sagrado

Mesmo que em cova rasa

Tendo sido herói

Abatido como bandido

Me encontrando todo torto

Como os versos finais que escrevo

Horríveis, mas com eles pareço

Eu, descanso, em solo sagrado...

 

Por: Douglas Naegele

Em: 12.12.2006

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