(CONTO)
O sol já ardia firme às sete e meia da manhã naquela segunda-feira. Havíamos marcado para nos encontrar na esquina do Beco da Bica com a Rua Barão da Gamboa, no sopé do Morro da Providência, Zona Portuária do Rio de Janeiro. Iríamos iniciar um trabalho de pesquisa sobre o conceito de família junto aos moradores daquela comunidade, iniciativa de uma organização não governamental evangélica, dirigida por um amigo meu que havia aceitado a minha participação como “observador”, pois eu não fazia parte nem da entidade pesquisadora, nem da igreja que encomendara a tal pesquisa. Como convidado, eu não era integrante da equipe entrevistadora, mas estava autorizado a fazer algumas perguntas aos moradores locais, a fim de coletar subsídios para um futuro trabalho sobre a mais antiga “favela” do Brasil. Seria a primeira vez eu que visitaria aquela comunidade, terra do “Prata Preta”, palco de lutas populares históricas, berço da Revolta da Vacina e onde surgiu o termo que durante muito tempo foi utilizado para designar um povoamento de baixa-renda no Brasil: Favela...
Eu estava emocionado... Pensava: - Será que essas pessoas conhecem a história do local onde vivem?
Logo que iniciamos a subida, na primeira “birosca”, nos deparamos com uma cena que, não posso negar, me chocou. Já havia visto pessoas usando drogas nas esquinas do Rio, em boates e danceterias. Crianças cheirando “cola” em meio à multidão, em pleno Centro da cidade, também. Meninas se prostituindo em troca do que comer nas rodovias federais, de mesmo modo, não me eram novidade. Mas, homens caídos nas vielas do morro, totalmente embriagados, verdadeiramente me desconcertaram... Ou melhor, me incomodaram, mesmo!
Isto por que, ao longo de todo nosso trajeto, não eram dois ou três, mas muitos homens caídos... Bêbados... Jogados... Esparramados como se lixo fossem!
Profundamente perturbado com o que vira, decidi perguntar a uma moradora a razão que resultara naquele bando de corpos ao chão. A resposta foi, no mínimo, curiosa: - A estiva tava fraca, moço...
Estiva fraca? O que seria estiva fraca? Nada disse. Calado como estava, continuei o trabalho que havia me proposto a fazer, entrevistando as pessoas sobre o conceito de família que elas tinham e aproveitando para checar o grau de politização de cada pessoa que eu conversava... Todavia, meu incômodo não passava, e já quase no topo do morro, sentado num sofá de um casebre divido ao meio por uma cortina suja, a qual há muito tempo deixara de ser vermelha, ao saber que a profissão do chefe da casa era estivador, perguntei: - E a estiva está fraca? – Ele, muito sério, respondeu que a culpa era dos “milicos” e do Collor que “acabaram com o porto”...
- Hoje em dia, seu moço, os homens acordam as quatro da “matina”, descem o morro para se apresentarem ao capataz na porta dos armazéns. Como o trabalho é pouco... A maioria não trabalha e quem não trabalha “num ganha”... Eles voltam pra casa e bebem!
Pronto. Havia matado a charada! Estiva fraca significava falta de trabalho, conseqüentemente, falta de dignidade... Aqueles homens caídos nos becos daquela comunidade eram trabalhadores desempregados, desiludidos... Desesperados!
Naquele momento, um ímpeto cresceu dentro de mim e um desejo de conhecer mais profundamente a realidade daqueles homens, suas famílias, suas histórias... Entretanto, duas frases não saíam de minha cabeça: “... os ‘milicos’ e o Collor acabaram com o porto...” e ...”quem não trabalha ‘num ganha’...”.
Por volta das cinco e meia da tarde descemos o morro. Somente voltaríamos na sexta-feira seguinte, mas mesmo assim, eu havia decidido que no dia seguinte retornaria para continuar minhas conversas com os moradores dali.
Voltei para casa, excitadíssimo. Minhas idéias fervilhavam! Imaginava como seria a vida de cada um daqueles homens caídos nos becos e vielas da Providência... Quais seriam suas histórias? Seus anseios? Seus amores? Será que ainda existiam perspectivas de felicidade? Eu tinha que conversar com algum daqueles homens!
Não consegui dormir... Passei a noite em claro. Aproveitei o tempo para pesquisar um pouco mais a história do Morro da Providência, afinal a internet serve é para isso, né?!
Assim, logo que o dia amanheceu, tomei um banho e me vesti. Peguei o gravador de bolso, conferi se a bateria estava carregada e me municiei com duas fitas. Um caderninho de notas e duas canetas completaram meu aparato de trabalho. Tomei um café no “boteco” da esquina aqui de casa e segui meu caminho. O relógio já beirava às oito horas da manha quando iniciei a subida pelo mesmo Beco da Bica que havia subido no dia anterior. Desta vez não havia nenhum corpo caído junto à primeira “birosca”, aliás, não havia ninguém bêbado em lugar nenhum, sequer as “biroscas” estavam abertas... Estranhei, mas pensei: - A estiva hoje deve ter sido “forte”...
Despreocupado, achei que o melhor seria bater na casa do Seu Dionísio, o morador que havia conversado comigo antes. Certo de que saberia chegar ao endereço, dobrei numa viela à esquerda e danei a subir uma escadaria imensa que se bifurcava em outras duas, tão íngremes quanto à primeira. Escolhi a da esquerda e foi nesse momento que um menino, digo menino, pois o garoto não deveria ter mais que doze ou treze anos, armado com um fuzil me abordou ameaçadoramente: - Vai pra onde, tio? – quis saber. Assustado com o tamanho da arma que o garoto portava e, mais ainda, pelo fato de que era óbvio que o menino estava completamente drogado, respondi: - Na casa do Seu Dionísio...
- Quê que o senhor que com ele? Ele te conhece? – Inquiria o garoto sem para de se morder. E antes que eu dissesse qualquer coisa, ele ordenou: - Vem comigo que o negócio tá ruim aqui hoje! Pensei comigo: - Isso vai acabar mal...
Fui levado, por entre becos e vielas, até o alto do morro, com o menino sempre atrás de mim, se mordendo como um louco. No meio do caminho, outros dois garotos se juntaram à minha comitiva. O mais velho com cerca de uns dezessete anos e o mais novo, talvez, uns quinze. Ambos bem armados, o “menorzinho” portava uma submetralhadora, o outro além de um fuzil, uma pistola que parecia que iria cair a qualquer momento de sua cintura. Chegamos a uma “praça” onde outros garotos armados, fumavam maconha, cheiravam cocaína e conversavam quase que aos sussurros. Fui levado ao que parecia ser o “chefe” deles... Outro menino. Não devia ter mais do que vinte anos, vinte e dois no máximo! O primeiro menino que me abordara na escadaria, relatou como e onde me encontrara e o que eu dizia que estava fazendo. Aquele que parecia e comportava como “chefe” me chamou e perguntou o quê que eu queria com o Seu Dionísio. Eu respondi que queria conversar. Expliquei que estivera no dia anterior conversando com ele acompanhado pelo “pessoal da igreja”, etc.. Foi aí que tudo mudou...
- Ah! O senhor é da igreja... Porque não disse antes?! Tá tudo certo, Ratinho... Leva o “irmão” lá no meu pai, que tá tudo em ordem! – disse o filho do Seu Dionísio, o Sapinho, “dono” do Morro da Providência. Naquele instante descobri que a saudação evangélica: “A Paz do Senhor”, abriria mais portas do que eu poderia supor... Ao menos naquela comunidade.
Escoltado por Ratinho, fui levado até a casa do Seu Dionísio, que ficava do outro lado do morro, na direção contrária da que eu tomara antes de meu encontro com Ratinho. Fui recebido pela Dona Maria, esposa do Seu Dionísio, mãe do Sapinho.
- Olha só Dona Maria!... Olha quem eu encontrei perdido aqui no morro! O Sapinho me mandou trazer o “irmão” até aqui pra conversar com Seu Dionísio... – Dona Maria me olhou com jeito caridoso, e disse: - Tá entregue, Agnaldo... Pode ir... – Com um olhar severo sobre mim, Dona Maria perguntou: – O Pastor sabe que o “irmão” está aqui? – Sem graça, respondi que não. Minha anfitriã, ainda com a cara emburrada, disse que eu não deveria me arriscar no morro por aqueles dias, pois o morro estava “em guerra” e quando o “pessoal da igreja vem aqui, vai lá deixa tudo acertadinho com os ‘meninos’! O ‘irmão’ num pode fazer isso assim, não...” – Terminada a bronca, Dona Maria me serviu um cafezinho e me informou que Seu Dionísio iria demorar, pois ele conseguira trabalhar naquele dia, mas seu quisesse esperar, por volta da hora do almoço ele já estaria de volta. Sem alternativa, aceitei...
Enquanto esperava o Seu Dionísio, Dona Maria foi me esclarecendo algumas de minhas dúvidas. Sapinho, aliás, Juliano, fora criado na igreja desde pequeno... Certo dia, de acordo ela, se desiludiu com o pastor e com outros “irmãos”, por causa de umas coisas estranhas que ele disse ter visto, largou a igreja e se juntou com quem não “presta”. E por causa dele, o Maurício, agora chamado de Dão, o caçula da família saiu de casa e se juntou ao irmão mais velho, tornando-se o segundo no comando do morro.
A conversa fluía com naturalidade, eu quase não perguntava nada, pois Dona Maria, emendava um assunto no outro, explicando tudo com riqueza de detalhes, como se soubesse exatamente o que eu buscava saber. Lá pelas tantas, eis que chega Seu Dionísio. Com jeito de quem já sabia que eu estava em sua casa, e obviamente já sabia mesmo, meu anfitrião me saudou como se eu já fosse “de casa”: - A paz do Senhor, irmão! – Eu me levantei e apertamos as mãos. Dona Maria estendeu sobre a mesa, uma toalha tão surrada quanto a cortina que dividia a casa, enquanto o marido lavava as mãos e rosto. Seu Dionísio puxou uma cadeira e sua companheira serviu um prato de comida que mais lembrava uma montanha de tão cheio. Não quis ser inconveniente, por isso me mantive calado, e quando Dona Maria trouxe-me um prato de comida tão cheio quanto o do Seu Dionísio, mesmo achando um exagero a quantidade que ela me havia servido, nada disse e me juntei ao dona da casa à mesa. Dona Maria não comeu conosco. Se comeu... O fez em outro lugar.
Após saborearmos a deliciosa comida caseira de Dona Maria, Seu Dionísio e eu, nos sentamos no velho sofá da sala e antes que eu me manifestasse, o velho estivador perguntou: - Pois então, meu “irmão”, o quê te trás aqui de novo? Soube que o “irmão” quer conversar comigo. Do que se trata? – Expliquei pormenorizadamente o que me levara a procurá-lo novamente, narrei minha aventura com Ratinho, como fora apresentado ao seu filho e a maneira pela qual eu acabara sendo conduzido à sua casa, etc.. Com tudo esclarecido, Seu Dionísio falou:
- Bem, meu “irmão”... Se é sobre a estiva e sobre o morro, isso eu posso falar, só não quero conversar sobre essa “malandragem” que meus filhos estão envolvidos.
- Não, Seu Dionísio, eu quero saber é sobre o morro mesmo – disse eu – Quero entender a relação entre a comunidade e o Porto do Rio, o quanto que um precisa e existe com ou sem o outro.
- Nesse caso, eu posso dizer que essa coisa entre o morro e o porto já foi mais forte. Mas, hoje em dia, não é mais não... Para o “irmão” ter uma idéia, meu avô trabalhava na estiva e levou meu pai e meus tios para a estiva. Meu pai e meus tios levaram a mim, meus irmãos e meus primos pra estiva, também. Dos filhos de meu pai, só eu não consegui por os meus filhos na estiva... Não quiseram... Acharam de fazer besteira na vida...
- Era assim que funcionava – continuou – passava de pai para filho. A gente fazia o primário, chegava até a “admissão”, que era antes da gente entrar pro “ginásio”, depois a gente entrava pra estiva, pois filho de estivador não ficava desempregado! Sempre tinha trabalho... Num faltava, mesmo! Isso aqui era apinhado de navio... Navio de tudo quanto é tipo! Então, era assim... Mas depois, na época que eu estava para casar, os navios deixaram de atracar aqui e passaram a preferir Santos e Tubarão... Também, pudera! As empresas foram todas para São Paulo, não restou nada aqui! Uma ou outrinha é que insistiu... E as que aqui ficaram, se não fecharam, foi por pouco...
Eu estava embevecido. A conversa estava ficando melhor do que eu imaginava! Em minha mente eu juntava os pauzinhos: A “estiva fraca” criou uma massa de desempregados, os quais, praticamente, mendigavam por um dia de trabalho, baixando o valor da hora de trabalho, o que levava a um pauperismo sem fim. Assim, era obvio que o filho do estivador encontrasse cada vez mais dificuldades para prover a família. O que já respondia, de certo modo, a outra pergunta, no que dizia respeito aos filhos do Seu Dionísio... Certamente, não só eles, mas os outros que optaram pela via criminosa do tráfico de drogas, o fizeram por notarem que o trabalho árduo de seus pais, tios e primos não estava mais compensando. Isto tudo resultava na desilusão de uma mocidade que poderia, se a estiva não estivesse “fraca”, ter tomado outro rumo...
- Tudo isso começou com os militares! – prosseguia Seu Dionísio – Pois, mesmo depois que a Capital saiu daqui para Brasília, as fabricas continuaram aqui... As empresas continuaram a exportar e a comprar mercadoria. Mas, depois de 64... Os generais foram enfraquecendo o Rio... Dando “vantagem” para as empresas que fossem para São Paulo... Para Minas... Para você ver: Quando eu me casei, eu comprei essa casinha daqui que era de folha de zinco, botei tudo abaixo! Fiz alicerce, sapata, coluna, coloquei cada tijolo e ainda bati laje! Tudo com dinheiro da estiva! Paguei tudo à vista... Sem esse negócio de prestação! Os móveis aqui de casa, a cortina, tudo foi comprado à vista! Minha casa, quando casei, era uma beleza... E eu ainda tinha planos para aumentar, fazer mais três quartos lá em cima... Mas, aí a estiva ficou “fraca”... Trabalhava um dia e no outro eu descia, mas num tinha trabalho... Às vezes ficava dois, três dias, sem trabalhar... Cheguei há ficar quinze dias, né Maria?!
- Foi nessa época que o “comando” chegou por aqui – disse Dona Maria, se chegando – Aí, mudou tudo! Os “meninos” passaram a andar armados... Era “guerra” todo dia! Contra a polícia, contra outra facção... Volta e meia, tentavam invadir aqui! E os “meninos” faziam “guerra”... E toma-lhe “bala” para tudo quanto é lado!
- É... E foi na época do Collor que tudo foi “pras cucúias” – interrompeu o estivador – Privatiza dali... Privatiza daqui... O porto quase fechou de vez... Ficou às traças... À míngua, mesmo! Os estaleiros fecharam e tudo que já estava ruim, ficou ainda pior... Mas, aí o povo viu que o camarada era do mau e tirou ele de lá! Aquele negócio do “impeachment”, lembra?!
Realmente, eu estava me deliciando com tudo que ouvia. Jamais poderia imaginar que eu estaria ali ouvindo da boca de um estivador, morador de uma favela, a história recente do Brasil sob o olhar do prejudicado, desengajado, apartidário... Aquele que devia tomar a História nas mãos!
A conversa poderia se estender ainda mais, talvez por horas a fio, mas... De repente, a porta do casebre se abriu! Era Ratinho...
- O “irmão” vai ter que descer agora! – disse o garoto, com os olhos esbugalhados.
- O quê que houve Agnaldo? – perguntou Seu Dionísio.
- Os “home” estão preparando para subir... Vai ter “guerra”!
- Então é melhor o “irmão” ir descendo mesmo... Se não a coisa pode ficar esquisita pro amado aqui em cima. – Compreendeu a situação o velho estivador que, se pondo de pé, arrematou: - É melhor o “irmão” vir comigo...
Nem questionei, apenas segui Seu Dionísio. Na medida em que nos aproximávamos do “asfalto”, eu podia ver o perigo que se avizinhava. Dezenas de viaturas policiais, estacionadas de qualquer maneira, se aglomeravam às cercanias do Morro da Providência. Na saída do morro, Seu Dionísio me deu um abraço e pediu para eu voltar um outro dia, mais calmo, sem “aquela agitação”. Concordei e segui a Rua Barão da Gamboa em direção à Rua do Livramento. Lembro de ter pensado que nunca vira tanta polícia em um só lugar... Nem olhei para trás, pois eu estava apavorado...
Voltei para casa e me fartei ouvindo toda a prosa do Seu Dionísio. “Que conversa boa... Nem mesmo em roda de intelectuais ouvi tanta pureza e sentimento!” – Comentei com meus botões. Alta noite, fui dormir, depois de por tudo que vivera e vira na memória do computador...
No dia seguinte, li a notícia estampada em todos os jornais do Rio, daquilo que eu por pouco não presenciara. A polícia havia “invadido” o Morro da Providência, onze mortos, as fotos mostravam duas execuções, um dos executados era o Ratinho, ou melhor, o “menino” Agnaldo. O pai dos traficantes Sapinho e Dão, o estivador Dionísio “das couves”, foi morto na troca de tiros entre a polícia e a bandidagem. Sapinho fora detido e levado para a carceragem da Polinter. Não se sabia, até o momento da impressão daquela edição, o paradeiro de Dão, provável sucessor de Sapinho no comando do tráfico no Morro da Providência.
Uma dor estranha, um pouco sem sentido, tomou meu coração. Afinal eu não conhecia todos os envolvidos... Mas, de qualquer modo, eu me sentia meio que fazendo parte de tudo... A imagem e o abraço do Seu Dionísio ficaram como despedida... E uma voz ainda ecoava em meus ouvidos...
- Vai pra onde, tio?
Agora, parecia dizer: Adeus...
Por: Douglas Naegele
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