domingo, 9 de dezembro de 2007

Solo Sagrado


Solo Sagrado:


Descansa em solo sagrado
A história de um mundo mudado
Por letras escritas em mim
Tatuadas em meu corpo, enfim

Distante de onde eu venho
Como a moagem de um velho engenho
Reescreve em curta memória
Um épico como o de Tróia

Narrado com voz embargada
De frente a uma lareira apagada
Soando tão falsa como a vida
Depois, em carrara esculpida

Essa lenda que conta o meu ser
Com toda dificuldade de ler
Curado tal qual numa mágica
Falida página trágica

Que revela a sutileza
Na plenitude de mera beleza
De anos contados por vis
Com balas de canhões ou fuzis

Profundas maquinações
De intricadas razões
Levaram então a minha morte
Mas, não contavam com a sorte

Que num ato de simples vingança
Trasladou a pobre esperança
Que sofria em profunda ruína
Mantendo uma fidelidade canina

Na mão do seu benfeitor
O qual atestava com profundo horror
Que aquele corpo inerte
Ainda que como um vampiro desperte

Só poderia ser meu
Um misto de judeu e ateu
O mesmo crente desalmado
Que acorrentou-se no pecado

Nesse instante jazia
Tal qual uma mala vazia
Servindo em prata bandeja
Derrotado na última peleja

Meu corpo pálido de herói
Figura opaca que um sopro destrói
Varrido e seco
Assim como esterco

Em hora obtusa e vã
A uma divindade pagã
Envolto em puro mistério
Na cova rasa de um cemitério

Morri sem orgulho ferido
Do mesmo modo bandido
Em que meus anos vivi
De muitas delícias servi

Com o corpo sobrepujado
Por vezes violentado
Deixo a todos a minha história
De desonra e boa memória

Pois, descanso em solo sagrado
Mesmo que em cova rasa
Tendo sido herói
Abatido como bandido
Me encontrando todo torto
Como os versos finais que escrevo
Horríveis, mas com eles pareço

Eu, descanso, em solo sagrado...

Por: Douglas Naegele
Em: 12.12.2006

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